O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito para um quarto mandato, terá de negociar a partir de 2027 com um Congresso Nacional de maioria de direita e centro-direita. A avaliação consta de estudo da ARX Investimentos, divulgado em 1º de novembro de 2026, que aponta dificuldades para a aprovação de propostas do governo e maior necessidade de acordos políticos.

Segundo o levantamento, esses campos ideológicos reunirão 56,9% dos deputados e 63% dos senadores. Para o economista-chefe da ARX, Gabriel Barros, as divergências na agenda econômica tendem a dificultar a relação entre o Palácio do Planalto e o Legislativo.

PL terá as maiores bancadas

O PL, partido de Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula no segundo turno, terá a maior bancada nas duas Casas: 121 deputados, o equivalente a 23,6% da Câmara, e 29 senadores, ou 35,8% do Senado. Na Câmara, vêm na sequência PT, com 70 deputados (13,6%), União Brasil, com 46 (9%), PSD, com 43 (8,4%), e Republicanos e PP, com 41 cada (8%).

A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, somará 88 cadeiras na Câmara, ou 17,2% do total. O PT elegeu 70 deputados, aos quais se juntam 11 do PCdoB e sete do PV.

O estudo também registra concentração maior de cadeiras nas principais forças. No Senado, a participação da maior bancada subiu de 19,8% para 35,8%, e o peso das três maiores passou de 48,1% para 56,8%. Na Câmara, a fatia das três maiores bancadas ou federações foi de 55,4% para 57,7%.

Quóruns exigem acordos

Pela divisão ideológica adotada no estudo, a esquerda terá 95 deputados (18,5% da Câmara) e a centro-esquerda, 31 (6%). O centro reunirá 95 deputados, enquanto a centro-direita terá 155 e a direita, 137. No Senado, esquerda e centro-esquerda somarão 15 parlamentares, e o centro, outros 15. Juntos, os três campos chegam a 30 votos, abaixo dos 41 necessários para a maioria absoluta.

Na Câmara, os 292 deputados de direita e centro-direita ficam 16 abaixo dos 308 votos exigidos para aprovar uma proposta de emenda à Constituição (PEC), que precisa de dois turnos. No Senado, os 51 parlamentares desses campos superam o quórum de 49 votos. Os cálculos pressupõem que todos votem de forma alinhada, e o estudo ressalta que a classificação ideológica não reflete necessariamente o comportamento de cada parlamentar em cada votação.

Ainda assim, o levantamento indica que o governo precisará buscar apoio em legendas de centro-direita ou direita para atingir determinados quóruns. Para Lula, a aprovação de propostas dependerá não só de esquerda e centro-esquerda, mas também de acordos com partidos de centro e de outros campos.

A distribuição regional pode ajudar o presidente nessas negociações. Segundo a ARX, o Nordeste concentra parte expressiva dos deputados de legendas de centro e centro-direita, inclusive partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro no segundo turno. Na Câmara, a região reúne 41,9% da bancada do PSD, 36,6% do PP, 36,1% do MDB e 34,8% do União Brasil.

Os diretórios estaduais, porém, nem sempre seguem a linha nacional. O estudo cita o MDB: 17 diretórios estaduais apoiaram Flávio Bolsonaro no segundo turno, enquanto outros dez, a maioria no Norte e no Nordeste, declararam apoio à reeleição de Lula, entre eles Bahia, Pernambuco, Ceará, Alagoas e Maranhão.

Risco para a agenda econômica

Gabriel Barros avalia que a nova composição torna a relação entre governo e Legislativo mais complexa, sobretudo na economia. Para ele, a tensão tende a aparecer pela divergência de pauta econômica já conhecida.

"É preciso restaurar as instituições e a harmonia econômica, mas a expectativa de que isso seja feito é baixa."

O economista afirma que a simples composição do Congresso não garante atuação coordenada entre os partidos que ampliaram suas bancadas. Segundo ele, a falta de clareza, de estratégia e erros de execução podem pesar sobre a agenda dos vencedores. Barros também citou o risco de fisiologismo, isto é, a troca de apoio político por cargos, recursos ou benefícios em detrimento de compromissos programáticos.

O estudo integra o trabalho "Presidencialismo de Coalizão: o novo Congresso e a formação de maiorias", elaborado por Gabriel Barros, Cléo Olimpio, Matheus Caliano e Eric Fernandes, e considera a distribuição partidária após as eleições, a composição ideológica das bancadas e os votos necessários para aprovar propostas.