O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, encerrou a semana em queda de mais de 18%, aos 167.922 pontos, após cinco pregões consecutivos de baixa. O movimento veio depois do resultado do segundo turno das eleições presidenciais, com a reeleição do presidente Lula (PT), e foi acompanhado de forte alta do dólar.

Queda reflete revisão de apostas do mercado

Segundo economistas ouvidos pela reportagem, a queda reflete uma revisão das apostas do mercado após a vitória de Lula. Para eles, a volatilidade deve seguir elevada, e uma recuperação mais consistente depende de sinais do governo sobre a economia e as contas públicas.

Levantamento da consultoria Elos Ayta mostra que a semana é a quinta pior da história do Ibovespa desde o Plano Real. Só ficaram atrás dela o período encerrado em 20 de março de 2020, no início da pandemia de Covid-19, quando o índice caiu 18,88%, e outras semanas marcadas por crises internacionais, como a crise asiática de 1997, a crise do subprime em 2008 e os atentados de 11 de setembro de 2001.

Pelo mesmo levantamento, as empresas listadas na B3 perderam R$ 963 bilhões em valor de mercado nesta semana.

Dólar tem maior alta semanal desde 2011

O câmbio também reagiu. Considerando a Ptax, taxa de referência calculada pelo Banco Central, a moeda americana subiu 7,61% na semana, a maior alta semanal desde setembro de 2011, segundo a Elos Ayta. O recorde da série, que começa em 1999, é de janeiro daquele ano, com alta de 21,11%.

Investidores vinham apostando em uma mudança de rumo na política econômica, sobretudo na condução das contas públicas. Esse movimento havia ajudado a puxar a bolsa e a derrubar o dólar após o primeiro turno. Segundo Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, o Ibovespa saiu de 186 mil pontos no fim de setembro e chegou a superar 205 mil pontos na sexta-feira anterior ao segundo turno.

O mercado dava como praticamente certa a vitória de Flávio Bolsonaro (PL), o que tornou o resultado uma surpresa. Para Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, o movimento foi puxado sobretudo por investidores estrangeiros, que já vinham saindo da bolsa na quinta e na sexta-feira antes da votação. Após o resultado, pessoas físicas fizeram o caminho contrário e compraram ações.

Contas públicas no centro das preocupações

A dívida bruta do país chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto, cerca de R$ 11,1 trilhões, o equivalente a aproximadamente dez meses de toda a produção da economia, de acordo com dados citados pelo veículo. Quando investidores duvidam da capacidade do governo de controlar gastos e estabilizar a dívida, passam a exigir juros mais altos, o que encarece o crédito e torna a renda fixa mais atraente que a bolsa.

Luiz Dornelas, CEO do Grupo Ludo, afirma que a queda reflete maior cautela com a economia, especialmente com as contas públicas, mas que não há uma causa única. Emerson Vieira De Farias Junior, gestor da Convexa Investimentos, também aponta o risco fiscal como principal preocupação e diz que o mercado espera sinais mais claros do governo.

Para Farias Junior, o problema não é a oferta de dólares, já que o Banco Central tem reservas robustas. O ponto central, segundo ele, é o risco fiscal, e o mercado espera definições sobre quem será o ministro da Fazenda e qual plano fiscal será apresentado para ancorar as expectativas sobre a dívida.

Dornelas considera possível uma recuperação parcial, com investidores voltando às compras após a forte desvalorização, mas afirma que altas pontuais não significam necessariamente mudança duradoura de tendência. Trevisan, da Gravus Capital, avalia que um repique técnico nos próximos dias é possível, mas que ainda seria cedo para falar em recuperação.

No radar dos analistas estão também a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a Selic, na quarta-feira (4), e as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Antes da votação brasileira, a aposta era de corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica, mas agora o mercado vê maior chance de manutenção da Selic em 13,75%. Praça também cita as tensões no Oriente Médio e a alta do petróleo como fatores que podem seguir pressionando os mercados.

Ricardo Trevisan resume a leitura do mercado: "Repique não é recuperação". Para ele, a bolsa só deve voltar de forma consistente aos níveis de setembro se houver um compromisso fiscal crível, com nomes e números.